CARTA AO MEU PAI.

13/Jan/2007 8:43

PAPA:

Falei contigo pela ultima vez no dia de natal.

Nunca imaginei eu que seria a ultima vez contigo em vida.
Sempre te imaginei um ser eterno, que durarias a vida inteira.
Nunca concebi que um dia irias partir.

Sabes papa, nunca mais vou esquecer as historias que tive contigo, (e sao muitas), os teus ensinamentos, as tuas lagrimas quando falavas do avo, teu pai.
Das saudades que sentias dele e do modo terno e emotivo de como o evocavas, das vezes em que o acompanhavas, de como dizias ele ser inteligente e ser capaz de fazer um fato so de olhar para a pessoa e da angustia por precocemente o teres visto partir.
Nao vou esquecer a tua ausencia injusta por uns tempos e das tuas palavras sussurradas com tanto carinho e preocupacao de pai, mas que eu ouvi e pela primeira vez na vida chorei de dor e tristeza.
Da primeira vez que me levaste ao cabeleireiro e pediste para me fazerem um penteado lindo, diferente.
Das vezes que passeamos todos juntos como uma familia.
Das tuas madrugadas de trabalho arduo, de anos de sacrificio tudo pelas filhas.
Da tua alma de fadista escondida.
Do teu orgulho em teres trabalhado nas minas de urgeirica e da forma atenciosa com que te trataram.
Das tuas historias do ultramar e da tua madrinha de guerra.
E um dia a familia partiu-se e...
nunca abandonaste as tuas filhas.
Sei que choraste muito, que sofreste muito, mas o AMOR INCONDICIONAL e assim como o demonstraste: sempre perdoaste os nossos erros de adolescentes inconscientes e nunca, nunca nos abandonaste.
Nao esqueco de como gostavas de ter a familia reunida.
Da tua alegria estampada no rosto quando a princesa Ana Leonor nasceu, das recordacoes que ela te trazia de mim mesma.
Tivemos muitas brigas, muitas zangas, muitas opinioes contraditorias, e foi assim que cresci. Bati com a cabeca na parede e aprendi.
Nao esqueco as musicas que me ensinaste a ouvir.
Partiste mas estas aqui na mesma comigo.
Disse te adeus, deixei te partir, mas foi somente o teu corpo que deixei de ver.
A tua alma permanece comigo.
Eras um apaixonado pela vida.
Sempre buscaste o amor da tua vida, alguem que te entendesse, que te compreendesse.
Nao tiveste muito sucesso.
Mas o amor das tuas filhas era a tua alegria.
Amavas os teus rebentos. De diferentes formas, de diferentes manifestacoes mas todas iguais.
Aprendi o que era amar o proximo, ajudar quem precisa, respeitar, lutar pelo que queria.
Com sacrificio.
Aprendi e herdei tambem a impulsividade que te mantinha na luta do dia a dia.
Aprendi tambem a perdoar se de facto valer a pena e a nao ter o tal coracao de galinha como muitas vezes dizias que nao se devia ter.
E pela primeira vez na vida consegui libertar me dos preconceitos, dos medos de expor os meus sentimentos e dizer que te amava muito e dizer obrigado por tudo o que fizeste por mim e ouvir as tuas palavras embargadas de dor.
Tudo o que fizeste para eu ser quem sou hoje.
Nao esqueco os maus momentos porque aprendi muito com eles. Ensinamentos para toda uma vida de constante crescimento.
Aprendi o que sao as injusticas e como ferozmente as combateste.
O espirito rebelde que herdei de ti.
De facto a vida e um circo e sao muitas as vezes em que estamos tao ocupados a olhar para os palhacos, para os malabaristas que quase nem nos damos conta das coisas boas que nos acontecem.
Aprendi muito contigo.
Sem sacrificio, empenho e motivacao nada se consegue.
Ajudaste me na minha conquista. Trabalhei e estudei a noite. Consegui. Sei que nao era o teu sonho mas tambem sei que estas orgulhoso de mim. No fundo compreendeste que acabei por seguir o meu sonho e seria contraproducente o contrario.

Sinto a tua falta.
E tenho muito orgulho em ti.
Muito orgulho mesmo.
Toda a tua vida sempre verbalizaste o teu medo de morrer, o teu medo de ser enterrado.
E no dia do teu funeral, foste mais uma revelacao de coragem, de serenidade. Um exemplo de pessoa, um ser extraordinario.
As palavras do padre tocaram me profundamente quando se referiu a ti como um ser excepcional que enfrentou a morte em vida com tranquilidade e serenidade. Com a coragem que poucas vezes viu no ser humano.

Obrigado PAPA por mais este ensinamento.
Obrigado.
Tua filha

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